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DO MICRO AO MACRO

O mito bíblico que gerou o antropomorfismo de Deus levou, dentre outras distorções, à errônea ideia de uma divindade quase que inativa após o breve período de seis dias gastos com a criação do mundo. O homem não podendo ter de Deus a noção exata de seus atributos, só o poderia conceber a sua semelhança. Assim, de acordo com a visão religiosa bíblica, Deus, como ser mágico fosse, tirou do nada o universo, fez todas as coisas, inclusive o homem, não precisando mais do que seis dias, e descansou. A partir da criação, portanto, o criador contentou-se em contemplar sua obra perfeita e acabada. Mas o criador também cuidava de fiscalizar e contabilizar as coisas erradas, inscrevendo na contabilidade divina aqueles que incorriam em falta. Os débitos seriam colocados num indeterminado e incerto momento, num julgamento único e final. Então, no máximo, a ação de Deus se resumiria a isto. Assistir e contabilizar as ações humanas e preparar o juízo final.
Mas ainda que se conservasse uma divindade antropomorfizada, o conceito de Deus evoluiu, especialmente a partir do Cristianismo, com a transformação do severo Jeová no pai misericordioso, sempre pronto a intervir em socorro da sua criação, sobretudo em relação ao homem. É o dogma da Providência Divina. Com o providencialismo bíblico, então, atenua-se a imagem de Deus inativo, adotando-se um conceito de divindade que age, intervindo diretamente na sua criação, ainda que em caráter especial e particular. O homem, que no Judaísmo era absolutamente submisso e temente a Deus, agora, no Cristianismo já tem o livre-arbítrio, mas deve temer o castigo divino em razão de suas faltas.
A dogmática religiosa predominou e dominou as ações humanas, impondo-se como única fonte de sabedoria, até que o cientificismo, a partir do século XVI, reagiu a esta ditadura teológica, que nada explicava, pelo menos de forma racional. Afinal de contas, sendo Deus todo poderoso e misericordioso, como poderia ele permitir as iniquidades, desigualdades, etc. À filosofia espiritualista, mesmo que já se inclinasse por um Deus bem mais operante do que o Deus das religiões, não tivera a força suficiente para se sobrepor ao dogmatismo religioso. Mas com o fim do obscurantismo medieval e o enfraquecimento da razão e o avanço da ciência, a contar do século XVI, o quadro modificou-se. Infelizmente, como decorrência natural e inevitável de reação à ditadura religiosa, verdadeira revolta contra o Deus contraditório e omisso do Cristianismo deturpado, surge o ateísmo e o materialismo, negando a existência de Deus e da alma humana.
E assim foi que a ação de Deus sofreu significativa mudança na formulação do racionalismo científico e filosófico. A ciência investiga e descobre o universo cósmico. Prova-se que o universo, ao contrário da visão religiosa, não se resume ao planeta Terra, mas é infinitamente grande e pulsante e está em expansão. Logo, o conceito de Deus deveria acompanhar este progresso. Tem-se, agora, uma concepção de um Deus cósmico. O homem passa a fazer parte de uma natureza que vai além dos limites planetários. É uma visão cosmológica da criação e do criador. Descobre-se que o universo não é estático. O paradigma mecanicista vai cedendo lugar ao conceito de universo ondulatório. Inteligente. A ciência cada vez mais se convence de que o universo funciona impulsionado e dirigido por um princípio inteligente por si mesmo, mas age como se tivesse inteligência. A conclusão lógica era a de que havia uma inteligência exterior à matéria, que a influenciava. Leis naturais rígidas, harmônicas e infalíveis mantém o equilíbrio das operações cósmicas. O evolucionar do universo é teológico, na medida em que tudo na natureza parece acontecer dirigido a uma finalidade.
A ciência demonstra que o homem não é produto da criação, nos moldes bíblicos, mas produto da evolução. Os seres na natureza cosmológica interagem, mantendo-se em equilíbrio e à mercê das leis imutáveis. Na formidável inteligência do universo identifica-se a ação de Deus, que é perene e vai do micro ao macro.
A transcendência divina está e vai acima e além da sua criação. O homem teve a intuição do ser transcendental, que lhe era superior e que deveria ser temido e adorado.
Mas a transcendência não torna Deus algo separado e alheio, dissociado da sua obra. Deus está intimamente presente na natureza, regendo a vida, a evolução, o interrelacionamento dos seres.
Não sendo o universo uma máquina, que bastou a Deus acionar o botão, na criação, para que funcionasse, mas sendo evidente a sua fluidez, o seu caráter ondulatório, o seu funcionamento equilibrado, preciso e harmônico, apesar da constante expansão, é inevitável a conclusão de que Deus é a fonte genética e estruturada de toda a realidade.
Com efeito, o constante evolver da natureza, o progresso que se verifica em todas as coisas, o transformismo incessante, mostram-nos uma criação progressiva. É transcendente pela sua superioridade e causa primária; é ação permanente no seio da criação. Sumariamente: DEUS NÃO JOGA DADOS!

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