A população do Chile vai às urnas neste domingo (19) para definir o vencedor do segundo turno da eleição presidencial do país. José Antonio Kast, de extrema-direita, e Gabriel Boric, de esquerda, estão na disputa com chances iguais de vitórias, com pesquisas apontando um empate nas intenções de voto.

O primeiro turno do pleito, em 21 de novembro, terminou com Kast em primeiro lugar, com 27,91% dos votos, e Boric em segundo, com 25,82%. Para sair vitorioso, um dos dois precisará obter mais de 50% dos votos.

Em campos opostos, Boric e Kast divergem em diversos pontos, da economia a questões sociais. Com isso, a eleição, para um mandato de quatro anos, tem sido marcada por uma polarização intensa, com os candidatos tentando conquistar eleitores indecisos.

Ao mesmo tempo, as duas principais forças políticas do país ficaram de fora do segundo turno pela primeira vez desde a redemocratização chilena.

O escolhido sucederá o atual presidente, Sebastian Piñera, que deixa o cargo com taxas baixas de aprovação pela população. O Chile também passa por uma Assembleia Constituinte, cuja nova Constituição influenciará o mandato, e as ações potenciais, de qualquer um dos mandatários.

Ao todo, 15 milhões de chilenos poderão participar das eleições, mas o voto não é obrigatório no país. No primeiro turno, cerca de 7 milhões de pessoas votaram, 47% do total. A expectativa é que o resultado seja divulgado entre a noite de domingo e a madrugada de segunda-feira (20).

Polarização
Lourival Sant’Anna, analista de política internacional da CNN, avalia que o aspecto mais importante do pleito é a polarização política, que segundo ele é recente no país. Desde a redemocratização, a centro-direita e a centro-esquerda se alternaram no poder.

Para ele, “o Piñera teve uma agenda mais de centro, mas a polarização estava se fermentando”. “Sempre houve candidatos e grupos de extrema-esquerda e de extrema-direita no Chile, mas é a primeira vez que eles têm uma chance real de chegar ao poder”.

Wagner Iglecias, professor da EACH-USP, afirma que “o Chile hoje tem um relativo grau de desenvolvimento, e isso se deve à receita do cobre. Mas é um país muito desigual. O acesso à saúde, à educação, à previdência é complicado para a maioria da população, com baixo investimento do Estado”.

Um dos problemas no país é, segundo Sant’Anna, a falta de uma previdência pública no país, que “levou a um empobrecimento das pessoas”.

Segundo ele, a falta de distribuição de riqueza no país se tornou um ponto relevante para o debate político, e gerou uma insatisfação em parte da população. Isso se refletiu, por exemplo, na série de protestos ocorridos em 2019, que culminaram na convocação de uma Assembleia Constituinte.

Para o professor, o cenário eleitoral atual é “incomum”, e reflete uma insatisfação não apenas com a situação econômica no país, mas com a classe política, o que favoreceu candidaturas de partidos menos tradicionais, caso de Boric e Kast.

Ao mesmo tempo, os dois candidatos acabaram representado uma guinada para extremos no país. Kast, um advogado, defendeu ao longo da campanha o legado do ditador chileno Augusto Pinochet. Ao mesmo tempo, realiza duras críticas a Boric, um ex-líder estudantil, aproveitando-se do fato do político ser aliado do Partido Comunista do Chile.

Boric promete impedir um avanço do autoritarismo e do conservadorismo no Chile, enquanto Kast afirma que “o Chile não é e nunca será uma nação comunista ou marxista”.

O reflexo dessa polarização está nas pesquisas eleitorais. A última, divulgada na quinta-feira (16), aponta que Kast possui 48,5% das intenções de voto, enquanto Boric tem 48,4%. O cenário é uma reversão de pesquisas anteriores, que mostravam Boric à frente de Kast, com a intenção de voto no candidato conservador subindo nos últimos dias.

Cenário interno
Além do primeiro turno da eleição presidencial, os chilenos também elegeram em novembro todos os 155 deputados do país e 27 dos 50 senadores.

A aliança de Boric, chamada de Apruebo Dignidad, conquistou 37 assentos, enquanto a de Kast, Fronte Social-Cristão, ficou com 15. O grande vencedor foi o Chile Podemos Más, com 53, aliança que engloba partidos apoiadores de Piñera.

O Novo Pacto Social, de centro-esquerda e que representou o governo da ex-presidente Michelle Bachelet, ficou com 37. Yasna Provoste, candidata do grupo, ficou em quinto lugar, com 11% dos votos, e agora apoia Boric. Já Sebastián Sichel, candidato do Chile Podemos Más, ficou em quarto, com 12%, e apoia Kast.

Outra grande novidade foi o empresário Franco Parisi. Populista e com discurso crítico à classe política, ele ficou em terceiro lugar, quase 13% dos votos, mesmo sem ter feito campanha presencial no país. Até o momento, ele se aproximou mais de Kast.

Somando partidos menores de esquerda, o bloco à esquerda conseguiu uma maioria na Casa, mas pequena. Já no Senado, serão os senadores independentes que determinarão qual bloco terá maioria.

Com isso, o ambiente legislativo para qualquer vencedor é incerto. “Se um deles ganha, mas o Congresso está mais próximo do derrotado, fica difícil implementar a agenda”, diz Iglecias.

Há, ainda, a nova Constituição do país, que precisará ser aprovada em um referendo. Com uma maioria progressista, ela deve estar mais alinhada às propostas de Boric que às de Kast. Iglecias não descarta que o candidato conservador apoie a rejeição dela no referendo caso saia vitorioso.

Economicamente, Boric defende uma reforma tributária e no sistema previdenciário do país. Ele também quer aumentar os impostos para empresas privadas que exploram cobre, principal produto de exportação do Chile. Já Kast quer cortar impostos, e já sugeriu que privatizaria a Codelco, empresa estatal que explora cobre.

Boric defende que o modelo econômico do Chile, ainda muito atrelado ao neoliberalismo implementado durante a ditadura de Pinochet, foi responsável por alimentar a desigualdade no país, e precisa ser substituído. Kast elogia o sistema, e promete ser um candidato que defenderá a “lei e a ordem” no país. Ele se posicionou contra o aborto e o casamento entre pessoas de mesmo sexo, enquanto Boric se colocou como favorável aos dois pontos.

Haveria reflexos para o Brasil?
Para Felipe Loureiro, professor e coordenador do curso de relações internacionais da USP, a eleição é “muito importante” para o Brasil, já que qualquer possível instabilidade pode refletir em terras brasileiras.

“Eu penso que o cenário seria muito semelhante ao que esta se desenvolvendo na Bolívia e no Peru, cuja eleições foram vencidas por candidatos de esquerda. Isso leva um enfraquecimento entre as relações bilaterais entre o Brasil de Bolsonaro e esses países. No caso do Chile tem um agravante, porque Bolsonaro se aproximou bastante de Piñera, desde 2019”, diz.

Regiane Nitsch Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp, aponta para uma possível “guinada conservadora” caso Kast saia vitorioso.

Já Paulo Velasco, professor da UERJ, acredita que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “torce para uma vitória” de Kast. Ele não vê um aprofundamento na relação entre os dois países caso Boric ganhe.

“Futuramente pode haver atritos dependendo do cenário político no Brasil, mas como são relações que não se prendem em político partidário, não imagino grande prejuízo”, afirma.

*Com informações da Reuters e de Leonardo Lopes e João de Mari, da CNN Brasil